SARAMANDAIA





Antes uma fazenda, o bairro de Saramandaia foi criado no início da década de 70, de olho em sua posição estratégica na época, quando estavam sendo construídos, a Avenida Paralela, o shopping Iguatemi e a rodoviária. A inspiração do nome veio da novela Saramandaia, de Dias Gomes, e as similaridades entre o folhetim e personagens que os moradores reconheciam em seu cotidiano: há quem diga que nos primórdios da região, um antigo morador era visto por vizinhos se transformando em lobisomem e correndo pelos matagais uivando para a lua em noites de lua cheia.

O realismo fantástico que acompanhou o nascimento do bairro caminha lado a lado com uma outra realidade, essa composta de indicadores sociais preocupantes para o desenvolvimento das crianças e jovens da região. Apesar dos cerca de 40 anos de existência, o bairro de Saramandaia ainda é um dos mais carentes de Salvador. A rede de saneamento básico é precária e não há equipamentos de lazer para seus cerca de 40 mil moradores. Já foi considerado um dos espaços mais perigosos de Salvador, com numerosos casos de violência e um alto índice de degradação social.

As moradias são de barracos de papelão e pedaços de madeira até uma estrutura mais estável de laje de concreto e blocos. Serviços municipais são inexistentes ou inadequados, a maioria das ruas continua sem pavimento, intransitável em tempo chuvoso. Durante décadas, Saramandaia foi conhecida pela violência, pelo tráfico de drogas e pelo desespero. Além das dificuldades com as insuficiências materiais da sua comunidade, os residentes de Saramandaia, assim como os residentes de toda comunidade, sofrem com a exclusão da sociedade e o estigma de marginais, criminosos e cidadãos de segunda classe que lhes é atribuído.

Se a falta de educação e oportunidades já dificulta a chance de achar trabalho, o preconceito social e étnico contra moradores de favelas torna esta possibilidade quase impossível. A região, que se situa nos limites de Pernambués, abriga o maior número de negros de Salvador, deixando o bairro da Liberdade para trás – segundo dados de 2012 do IBGE (Pernambués tem 53.580 mil pessoas de pele negra contra 35.704 da Liberdade). Por isso, muitas famílias encontram trabalhos informais, vendendo água e CD pirata e lavando para-brisas dos carros parados nos sinais, ou ainda carregando malas na estação rodoviária, engraxando sapatos e vendendo jornais para sobreviver. Pela baixa renda dessas atividades, muitas vezes o grupo familiar precisa que todos os seus membros, de criança a idosos, trabalhem para sustentar a alimentação e vestuário para todos.

A realidade das crianças da região também passa pela ausência de espaços de lazer – no bairro só existem quadras de futebol improvisadas pelos moradores. Diante dessa realidade, é no Arte Consciente que os jovens do bairro encontram na ONG não apenas uma alternativa de entretenimento, mas um espaço de profissionalização artística e esportiva, abrigado do mundo da violência e das drogas. Um espaço de cidadania e de esperança de construção de um mundo melhor.